A dieta do grupo sangüíneo - realidade ou ficção?
da Toronto Vegetarian Association
Dr. Michael Klaper *, médico

A teoria da "dieta do grupo sanguíneo" conseguiu grande atenção do público desde a publicação de Eat Right for your Type (A Dieta do Grupo Sanguíneo), do médico naturopata americano Peter J. D’Adamo. A premissa básica do livro é que o grupo O é o dominante, o caçador, geneticamente inclinado a comer carne, enquanto as pessoas do grupo A são vegetarianos dóceis e as do grupo B são onívoros, consumidores de laticínios. Não há dúvida de que esta teoria e o livro que a promove apresentam muitos problemas científicos e nutricionais que despertaram o interesse de numerosos cientistas e profissionais da saúde.


Por exemplo, o autor, D’Adamo, afirma que "certas leguminosas, especialmente lentilhas e feijões, contêm lectinas que se depositam nos tecidos musculares, tornando-os mais alcalinos e menos pesados para a atividade física" (p. 53). Isso constitui uma afirmação científica bastante séria e uma idéia alarmante caso seu sangue seja do grupo O. Afirmações inquietantes como esta deveriam estar respaldadas por provas científicas sólidas - com referências no pé da página e tudo - que o livro omite repetidas vezes. 


Para começar a convencer-me dos efeitos negativos das lectinas, D’Adamo teria de publicar fotografias, tiradas em microscópio, de fibras musculares de pessoas do grupo O, do grupo A, do grupo B e do grupo AB depois de terem consumido feijões ou lentilhas. (A coleta de amostras de fibras musculares, tecido adiposo etc. é uma técnica comum, confiável e praticamente indolor, conhecida como biópsia de "agulha oca", realizada como rotina em voluntários pagos por pesquisadores em nutrição, fisiologia do exercício, farmacologia, envelhecimento e outros campos.) As fotografias de tecidos deveriam mostrar claramente os depósitos de lectinas nos músculos de pessoas do grupo sangüíneo O e não nas amostras musculares de pessoas do grupo A. O livro não apresenta fotos nem estudos que corroborem suas especulações, o que, para mim, limita severamente sua credibilidade.


Para mim, o que realmente situa a teoria do "grupo sangüíneo" fora dos limites da credibilidade é sua afirmação de que as proteínas de lectina de alguns alimentos provocam a aglutinação do sangue de pessoas de certos grupos sangüíneos que não estão "genética e evolutivamente adaptados" a comê-los. A aglutinação é um fenômeno muito grave e potencialmente nefasto no qual os glóbulos vermelhos do sangue se aglomeram, formando coalhos irreversíveis.

O que há de mal em ter pequenos coalhos de glóbulos vermelhos navegando pela corrente sangüínea? Os glóbulos vermelhos levam oxigênio às células de tecidos vitais como o cérebro, o coração e os rins. Para cumprir esta missão, devem passar por capilares tão estreitos que são obrigados a alinhar-se em fila indiana. Se os glóbulos são aglutinados pelas lectinas ou por qualquer outra coisa, os coalhos de glóbulos vermelhos obstruirão os capilares e bloquearão o fluxo de sangue. Assim, a corrente sanguínea será impedida de levar sua carga vital de oxigênio aos tecidos alimentados por aqueles capilares. As células privadas de oxigênio são danificadas e acabam morrendo. Como muita gente não conhece seu grupo sanguíneo, é razoável supor que muitos de nós consumimos regularmente "alimentos errados" para nosso grupo sangüíneo (por exemplo, trigo para o grupo O, carne para o grupo A etc.) Desta forma, segundo a teoria de D’Adamo, todo mundo sofre descargas repetidas de glóbulos aglutinados em sua corrente sangüínea, dia após dia, mês após mês, ano após ano. Se as fibras capilares de seu coração, pulmôes, rins, cérebro, olhos e outros órgãos essenciais estão sujeitas a aluviões repetidos de glóbulos vermelhos aglutinados, começarão finalmente a obstruir-se, danificando os tecidos. O cérebro, o coração, os pulmões, os rins e as suprarrenais logo estariam irreparavelmente lesados, o que poderia ser fatal para milhões de pessoas.


Os patologistas e outros cientistas médicos estariam bastante familiarizados com uma síndrome de falência orgânica devida a microenfartos (morte celular) induzidos por lectinas. A existência e as complexidades de uma enfermidade tão disseminada seriam tão bem conhecidas como no caso da aterosclerose. Sem dúvida, não conheço nenhuma descrição disso na literatura patológica e nenhum patologista, que eu saiba, jamais mencionou isso como causa de nenhuma doença em seres humanos.


Quando leio uma afirmação generalizada como "os indivíduos do grupo O não toleram, em absoluto, os produtos de trigo integral" (p. 63), devo perguntar-me o que o autor quer dizer com "em absoluto". É que os indivíduos do grupo O comem uma fatia de pão integral e caem no chão, apertando a barriga e vomitando? Ou, pior, sofrem danos cerebrais imediatos devido à obstrução causada pela aglutinação de células do sangue? Quanto trigo podem comer as pessoas do grupo O antes que seu sangue seja obstruído? Um pão de hambúrguer? Um prato de talharim?


Não nego que muita gente tem problemas quando come trigo. Sem dúvida, isso acontece porque têm uma alergia real ao trigo, intolerância ao glúten ou outro mecanismo comprovável. Como D’Adamo, admito que o trigo pode ser um alimento problemático para pessoas com colite e, amiúde, recomendo que o eliminem da dieta. Pode ser que as lectinas tenham seu papel no processo inflamatório de algumas pessoas. Mas, para convencer-me de que o grupo sanguíneo é o principal fator determinante da relação dieta-colite, o livro teria de apresentar provas concretas de que a disfunção do cólon induzida pelo trigo é um problema peculiar (ou significativamente mais comum) de pessoas do grupo O. Só que o texto do livro de D’Adamo é estranhamente desprovido de citações científicas e, em conseqüência, não encontro nele prova convincente da conexão lectina-colite.


Uma afirmação que me traz grande preocupação quanto à confiabilidade dos conselhos dietéticos de "A dieta do tipo sanguíneo" está na página 37. Apesar do amplo conhecimento de que muitos caucasianos não toleram laticínios, o livro recomenda que "pessoas do grupo B, descendentes de asiáticos, talvez precisem incorporá-los [os laticínios] mais lentamente em suas dietas, enquanto ajustam seu sistema a eles". Temo que as conseqüências disso para muitos leitores com deficiência de lactase sejam graves ataques de cãimbras abdominais, diarréias e, possivelmente, problemas piores, como colite. 


Outra afirmação problemática desse livro é "Esta doença chamada hipotiroidismo acontece porque pessoas do grupo O tendem a não produzir iodo suficiente" (p. 53). A realidade é que o corpo não "produz" iodo, mas o consegue ingerindo alimentos que o contenham. Preocupar dezenas de milhões de leitores do grupo O porque "talvez não estejam produzindo iodo suficiente" (coisa que ninguém faz) e que, portanto, correm risco de hipotiroidismo é infundado e desnecessariamente alarmante. (Deveria, isso sim, animar as pessoas a comerem suficiente quantidade de alimentos ricos em iodo, especialmente se são vegetarianas ou vegans.) 

Todos temos necessidades nutricionais diferentes e pessoas distintas estão adaptadas a tipos e quantidades distintas de comida. Não acredito que estas diferenças sejam determinadas de forma significativa pelo tipo sanguíneo. Com certeza não encontrei nenhuma pesquisa ou prova científica no livro em questão que me demonstre o contrário. Minhas sugestões (admito que excessivamente simplificadas) para uma nutrição ótima são: dar atenção ao que seu corpo lhe diz e concentrar sua dieta em alimentos frescos e integrais — cultivados da forma mais biológica possível e servidos com grande quantidade de amor e risos.

 

O Dr. Michael Klaper é produtor do vídeo "Diet for all Reasons" ("Dieta para todas as razões") e do livro "Vegan nutrition: Pure & Simple" ("Nutrição vegan: pura e simples").

Tradução: Beatriz Medina