Você sabe viver com transcendência?

Roberto Goldkorn

 

Ouvi um caso de uma menina de 17 anos, que foi ao cinema e ao sair se atirou na frente de um ônibus. Ela não morreu, mas nas suas próprias palavras ficou toda “arrebentada”. Perguntada mil vezes sobre o porquê de sua atitude, ela respondia “A minha vida estava uma droga, sem sentido, estava horrível".

 

Um documentário inglês sobre depressão, nos mostra um grupo de homens e mulheres que, num determinado ponto de suas vidas, tiveram um “colapso nervoso” e a partir daí foram obrigados não só a repensar as suas vidas mas, principalmente, a mudar de estilo de vida.

 

Ouvindo seus depoimentos ficou claro que o motivo maior de sua “doença da insatisfação crônica”, era sua relação com o trabalho. Todos mudaram de trabalho e agora dizem que se sentem melhor, até quando não sabemos.

 

Tanto a história da adolescente brasileira, que nem mesmo trabalhava, quanto à dos funcionários ingleses, nos remetem a um sem número de outras histórias de conhecidos, de parentes, nossa mesmo, das quais sabemos apenas fragmentos, mesmo quando achamos saber da “missa todo o terço”. Por que o consumo de drogas cresce tanto? Por que a obesidade já é considerada em alguns lugares problema de saúde pública? Por que os laboratórios investem milhões em busca de drogas mais eficazes contra a depressão, doença do pânico e outros distúrbios psíquicos? Por que a violência no trânsito nas grandes metrópoles atinge níveis alarmantes? É óbvio que não tenho a pretensão de chegar aqui com o elixir mágico que responderá (e resolverá) todas essas doenças modernas, quero fazer apenas um convite à reflexão.

 

Toda sociedade, como toda civilização, como todo ser humano, e até os animais, se vêem ao longo de suas existências diante de inúmeras “encruzilhadas”, onde têm de decidir a direção a seguir. No caso das sociedades (e de certa forma com os indivíduos também), as elites decidem, e seja pelo efeito manada, seja por coerção, todos seguem atrás, arcando com as conseqüências de tais decisões.

 

A nossa sociedade ocidental vem tomando decisões, que agora podemos perceber que não foram as melhores. É óbvio que não se trata de um filme ou de uma novela onde nós espectadores oniscientes como Deuses, podemos ver ou pelo menos imaginar quais seriam as conseqüências se houvéssemos optado pelo outro caminho. Não podemos.

 

Mas uma coisa é certa, algo não funcionou nesse caminho, que deveria nos trazer a paz e trouxe a guerra, deveria nos fazer felizes e nos meteu na depressão, e no medo, deveria nos trazer abundância e gerou miséria, deveria nos libertar... Mas a guerra, o medo, a depressão e a miséria nos fizeram escravos.

 

Mas qual é o remédio? Existe solução? Bem... nesse ponto sou bem Junguiano, só acredito em saídas individuais e desconfio das soluções de massa. Em cada caso de infelicidade crônica, podemos ver por trás as mãos esqueléticas da secura espiritual, da ausência de um horizonte que contemple a espiritualidade. Mas atenção não falo aqui de religião, talvez no máximo de religiosidade, pois as religiões da maneira como se estruturaram, só têm contribuído para o sectarismo, para seccionar o homem e apartá-lo de Deus e de seus iguais.

 

Transcendência

 

Falo de transcendência, palavra que pode ser entendida como ir além, superar as limitações visíveis, buscar um ponto além das coordenadas culturais/materialistas. Em termos práticos (lá vamos nós) buscar a transcendência. Isto significa não colocar um ponto final em cada canto dos perímetros de nossa vida física, fenomenológica. Significa saber e viver, com a consciência de que tudo isso que vemos e podemos mapear é apenas uma fração do real. Significa saber que não sabemos tudo mesmo com mestrado e doutorado, mesmo tendo amealhado US$100.000.000,00, mesmo dando 40 pontos de IBOPE em horário nobre.

 

O que é viver com transcendência?

 

Viver com a consciência da transcendência é saber que estamos interligados por fios invisíveis que nos ligam a todos e a tudo: passado, presente e futuro. E que as nossas ações, pensamentos, idéias, fazem toda a diferença, e podem alimentar tanto o princípio da vida como o da morte. Viver com a perspectiva da transcendência é saber que ninguém é inocente, que ninguém escapa dessa rede, e que a Rocinha ou Bagdá, está dentro de cada um, e que nada pode ser creditado ao acaso (“Deus não joga dados”).

 

Viver na transcendência não é um convite à revolução, nem ao isolamento numa caverna no Himalaia, nem à demissão para viver o “ócio criativo”, ao contrário. Viver na transcendência é uma instigação, começa com o pedido para que responda a uma pergunta, a mesma que Gautama o Buda fez a um poderoso rei que estava tentando convencê-lo a voltar para seu reino e assumir suas funções reais: “Você é feliz?” Ou pelo menos “Você está feliz?” Seja qual for a sua resposta, vá além e se pergunte: “Por quê?” Mas você pode dar mais um passo na direção do abismo salvador e arrematar: “Você consegue ser absolutamente sincero...consigo mesmo?”

 

Buscar a transcendência é exigir de você mesmo, e do mundo, a sua felicidade, e não se conformar com menos. Não aceitar como destino inexorável a miséria no sentido mais amplo, rejeitar as limitações que determinados modelos culturais e psíquicos impuseram à sua vida. É saber que em essência você é Espírito, que apenas está matéria, que você foi e ainda será, portanto nada se encerra aqui e agora. E isso faz toda a diferença, pois quem cai na consciência da transcendência age com ética, com carinho, com respeito à vida, primeiro a sua própria depois a vida planetária, pois terá certeza de que terá de encontrar ali adiante o resultados de suas ações.

 

Mas se você acha que a coisa toda se resume a esse capítulo do livro, então pode mentir, ferir, lesar, falsificar, destruir, que tudo será apagado mesmo, com a borracha infalível da morte. Mas a gente vê, apenas da observação a olhos nus do mundo que nos cerca, que não é bem assim. Somos e pagamos a conta dos que nos precederam, nos beneficiamos de seus acertos e sofremos pelos seus erros, e isso não é uma constatação mística.

 

Em 1900, o chefe de polícia do Rio de Janeiro mandou um relatório às autoridades sugerindo que se impedisse o crescimento das favelas, pois elas seriam foco de miséria e criminalidade. Se você vive achando que a vida “é isso que tá aí”, é como se tivesse permissão para agir de forma inconseqüente e que nunca pagará a fatura de seus atos.

 

Não se jogue na frente do ônibus depois do cinema, haverá sempre um depois.

 

Roberto Goldkorn é psicólogo e escritor. É especializado em fenômenos psíquicos do processo transpessoal e em Feng Shui.