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INTERNET: Meu bem, meu mal

Artigo escrito por Jacir J. Venturi, diretor de escola, professor da UFPR por 25 anos e autor dos livros Álgebra Vetorial e Geometria Analítica e Cônicas e Quádricas.

 

“O crescente desinteresse pelo ensino tradicional é um fenômeno que ocorre no mundo todo. O ambiente hermético ‘da oralidade e do impresso’, antes prevalecente nas salas de aula, hoje é compartilhado pelas novas tecnologias educacionais. Entre elas, talvez a maior mudança de paradigma tenha sido causada pela Internet, que representa uma ruptura com os consagrados modelos pedagógicos. Provavelmente não seja exagero dizer que cabe a divisão a.w. (antes da web) e d.w. (depois da web). Isso, porque em nenhum momento da história se ofereceu acesso ao conhecimento de maneira tão ampla e democrática.

 

Embora longínqua no tempo, cabe parcialmente uma analogia. No período do século III a.C. ao IV d.C., a Biblioteca de Alexandria, cujo acervo era de 700 mil papiros, tinha a louvável presunção de reunir todo o saber da Antigüidade. Seu lema era ‘adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra’. No entanto, seu manuseio era restrito: apenas os mais conspícuos sábios tinham condições de acesso.

 

A web torna disponíveis conteúdos técnicos e pedagógicos precisos, com visual atraente e em movimento. Em contrapartida, metade de seus bites é descartável, é entulho, lixo ou fútil às nossas crianças ou jovens.

 

Um belo exemplo do uso da rede vem do casal Bill e Melinda Gates: para a filha mais velha, de dez anos, os dois estabeleceram o limite de 45 minutos por dia. Sábados, domingos e feriados um pouco mais: uma hora. Ao proferir uma palestra no Canadá, Bill Gates conta que a filha protestou:

 

– Mas pai, vou ter este limite por toda a minha vida?

 

– Não, quando sair de casa, você poderá definir seu próprio tempo de uso do computador – responde Bill Gates, arrancando risos do auditório.

 

Não há como negar que a Internet é um poderoso agente de transformação do nosso modus vivendi et operandi. Somente no Brasil, somos 32 milhões de usuários, de modo que o nosso país é líder mundial em tempo de navegação: 21 horas e 39 minutos por mês.

 

Esse número equivale a 43 minutos diários. Seria aceitável, se não fosse o fato concreto que a maioria dos jovens passa de duas a quatro horas diante do computador, sacrificando a sociabilização, a cooperação doméstica, a compleição física e, sobretudo, os estudos e as boas leituras. ‘Meus filhos terão computadores sim, mas antes terão livros’ – já há algum tempo apregoava o próprio Bill Gates.

 

Com a Internet, pouco se cria e muito se copia! Boa parte dos trabalhos escolares são determinados pelo ‘ctrl + c’ e ‘ctrl + v’.

O professor atualizado, muitas vezes, fareja a cópia. Que tal fazer uma argüição oral ou uma resenha manuscrita do conteúdo apresentado? Mas não vamos dramatizar, pois quantos de nós – quando estudantes – copiávamos os trabalhos escolares dos livros, enciclopédias, revistas? Ou do colega que já havia passado pela disciplina?

 

Por isso, cabe ao educador incluir no seu trabalho pedagógico algumas tarefas: primeira – orientar que a cópia é uma atitude que desrespeita valores e direitos autorais; segunda – sugerir ao aluno bons sites sem se esquecer de sugerir bons livros; terceira – sempre incentivá-lo para que desenvolva o senso crítico.

 

Quanto à força e abrangência da Internet, vale um depoimento pessoal. Em 2001, no site www.geometriaanalitica.com.br, hospedei 498 páginas para estudantes de Engenharia e Matemática: cônicas, quádricas, superfícies, vetores, planos, retas, etc. Tive imensa surpresa: um contador internacional registrou centenas e centenas de acessos diários, oriundos de 58 países. ‘Navegar é preciso’, mas também é preciso ter discernimento do moderno canto da sereia: o fascinante – e falacioso – mundo do www.

 

Em tempo: A frase ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’ tem como autor Fernando Pessoa ou Luís Vaz de Camões? Veja a resposta no Google em 0,29 segundos.”

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